21/01/2021 - Brasil-1

RESPOSTAS DAS TRABALHADORAS SEXUAIS A POPULAÇÃO

RESPOSTA DAS TRABALHADORAS SEXUAIS DE BELO HORIZONTE AO FECHAMENTO DE HOTÉIS

Estamos vivendo uma segunda onda do vírus Covid-19, que está bem pior que a primeira, devido à ignorância das pessoas em insistirem que o vírus não existe e à incompetência do Governo Federal, ao alimentar o negacionismo. Além disso, a negligência governamental é manifesta, pela falta de um plano de vacinação, falta de insumos para uma possível campanha de vacinação e a insistência em recomendar tratamentos com medicamento sem comprovação de eficácia.

E no meio desse emaranhado de irresponsabilidades, estamos nós, trabalhadoras sexuais, sem apoio, invisíveis e correndo riscos para poder sustentar nossos filhos.

Não bastasse tudo isso, temos que lidar com o vídeo postado 14/01/2021 pela Vereadora Flávia Borja, em tom de deboche, externalizando moralismo e preconceito contra o trabalho sexual, em um momento tão desesperador para as trabalhadoras sexuais, que se vêem desprovidas de qualquer amparo, diante do fechamento de seus locais de trabalho.

Sabemos que a questão é delicada, pois a paralisação das atividades comerciais atingem os mais diversos setores econômicos de BH, agravando as desigualdades e vulnerabilidades existentes anteriormente à pandemia.

Nós, trabalhadoras sexuais temos lidado com a falta de auxílio, com a falta de política pública pedir o fechamento dos hotéis sem planejamento e estrutura para a ausência do trabalho é crueldade. Reivindicar a permanência dos hotéis abertos pode não atrair a simpatia da população (seja pelo preconceito e o estigma que envolvem o trabalho sexual, seja pelo fato de que, como as academias de ginástica, a atividade apresenta risco acrescido para a Covid, tanto para as mulheres, quanto para os clientes).

As três organizações que atuam na região da Guaicurus Coletivo Rebu, Aprosmig e Clã das Lobas, tem trabalhado incansavelmente, com material informativo, com testagem para Covid-19, com apoio de moradia e alimentação para essas mulheres, com a criação e atuação de um comitê destinado a dar orientação para o funcionamento seguro desses estabelecimentos.

Todas nós temos 100% da nossa renda proveniente do trabalho sexual, são mais de duas mil mulheres que sustentam suas famílias com esse trabalho. Sabemos que as medidas de proteção contra Covid-19 tem que ser seguidas e assim temos trabalhado até hoje.

Nenhuma organização de trabalhadoras sexuais foi convidada pela Vereadora Flavia Borja para dialogar sobre a situação. A Vereadora conseguiu o que queria: hotéis fechados e mais de duas mil mulheres trabalhadoras sem renda.

Aguardamos igual preocupação e a manifestação da referida para colocar comida na mesa de todas nós e de nossos filhos, tendo em vista a bandeira da vereadora de "defesa da família". Pergunta-se à vereadora: quem cuidará das nossas famílias?

A vereadora, assim como a Câmara dos Vereadores e a Prefeitura de Belo Horizonte, não apresentaram soluções para as milhares de trabalhadoras e trabalhadores da região da Guaicurus, não só das casas de prostituição, mas de todo o comércio local, que sofrerão os impactos das medidas. Registramos que, embora a presença de mulheres no Poder Legislativo poderia significar um avanço para todas as mulheres, a atitude da vereadora somente demostra que há mulheres que ocupam posições no poder, mas que atuam como se fossem homens de homens, reforçando o estigma, o machismo e o patriarcado.

Vereadoras contrárias às trabalhadoras sexuais reforçam o estigma que recai sobre nós e não nos representam.

O Movimento de Prostitutas em Minas Gerais, representado pelo Coletivo Rebu, Aprosmig e Clã das Lobas, por esta nota, solicita, encarecidamente, a todas as Vereadoras eleitas no Município de Belo Horizonte que se manifestem sobre o trabalho sexual exercido na região da Guaicurus e sobre a desproteção das trabalhadoras sexuais durante a pandemia.

Coletivo Rebu, Aprosmig e Clã das lobas

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